Eu cresci em uma casa aonde
todo mundo que chegava era recebido por minha mãe com um cafezinho passado no
coador de pano. Eu não bebia café, mas as memórias criadas em torno dele
enquanto seu cheiro exalava pelo ar, isso me seduzia. As lembranças mais marcantes
são a dos vizinhos que vinham todos os dias pela manhã ou à tardinha conversar
e os tios que vinham de longe uma ou duas vezes comer bolinho de chuva, claro
tanto a conversa quanto o bolinho eram acompanhados de café. E quando
faltava leite com chocolate, mesmo quem não gostava como eu se rendia ao
"café ralo" acompanhado de pão quentinho e manteiga.
Fato é que, conforme eu crescia e me inseria em novos ambientes e grupos, o café se insinuava mais para mim. Na faculdade, a cada intervalo de aula em que professores e alunos se reuniam ele estava presente. No trabalho, as decisões, os intervalos e as discussões de conselho de classe também contavam com a presença dele, e, aos poucos, como acontece com todo apaixonado insistente, o cheiro que dele emanava foi me seduzindo e a paquera foi se concretizando.
Eu continuava sem beber café
em casa, mas na rua nos tornamos amantes. No princípio adoçava-o bastante para
driblar seu sabor amargo, mas aos poucos encontrei o equilíbrio e do nada eu me
via bebericando e apreciando o líquido negro. Fosse no trabalho ou em algum
encontro ou reunião, sem nenhum pudor eu sempre cedia a tentação de leva-lo a
boca e bebê-lo.
Os nossos encontros furtivos
se repetiram por várias vezes durante muitos anos, até que um dia ele entrou em
minha casa, invadiu minha cozinha e passou a se sentar em minha mesa, a
assistir TV em minha sala, a estar presente quando recebo minhas visitas. Desde
então temos assumidamente um relacionamento.
Penso que deve ser assim que
nasce todo grande amor, pois um bom café é como um bom poema que nunca sai da
sua mente. Falando em poema, compartilho com vocês "Xícara", de FábioSexugi...

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